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O CONSUMO DE MACARRÃO INSTANTÂNEO E SUAS ASSOCIAÇÕES COM RISCO CARDIOMETABÓLICO EM JOVENS ADULTOS

Vitória Lôbo Barbosa da Costa Rego
14 de jun.
9 min de leitura

O macarrão instantâneo, desenvolvido originalmente no Japão na década de 1950, consolidou-se globalmente como um dos principais expoentes dos alimentos ultraprocessados. No cenário brasileiro, o mercado expandiu-se expressivamente a partir dos anos 1990, impulsionado pela entrada de grandes marcas comerciais e ramificações de linhas de produtos (como Nissin Miojo, Nissin Cup Noodles, Lamen Renata, Maggi e Vitarella), estabelecendo-se como uma escolha alimentar frequente entre jovens adultos na faixa de 18 a 35 anos (SILVA; FRANÇA; OLIVEIRA, 2017). Em escala econômica, o Brasil destaca-se como o maior consumidor de macarrão instantâneo da América Latina, registrando a expressiva marca de 2,8 bilhões de porções consumidas por ano, com taxas de crescimento de mercado sustentadas pela demanda de consumo rápido (WINA, 2023). A elevada presença desse produto no cotidiano juvenil decorre de fatores socioeconômicos e de lógica de mercado, incluindo o baixo custo de aquisição, a conveniência no preparo e o marketing agressivo direcionado a indivíduos com rotinas dinâmicas e tempo escasso para a culinária convencional (WINA, 2023).


Estruturalmente, o produto comercializado é dividido em duas partes distintas: o bloco de massa desidratada e o sachê de tempero emulsionado. A massa é constituída por farinha de trigo refinada, água e sais alcalinos, enquanto o sachê concentrado apresenta uma formulação rica em aditivos químicos complexos. Entre os principais ingredientes do tempero industrializado, destacam-se altas concentrações de cloreto de sódio, gordura vegetal hidrogenada, corantes artificiais (como o caramelo IV), conservantes e realçadores de sabor, com ênfase no glutamato monossódico. 


Apesar de sua alta aceitação sensorial, o perfil nutricional do macarrão instantâneo apresenta severas desvantagens à saúde humana. O produto possui um alto valor calórico, quantidades preocupantes de sódio, lipídios saturados e aditivos sintéticos (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). Além desses teores, apresenta baixo teor de fibras alimentares, micronutrientes essenciais (vitaminas e minerais) e proteínas de alto valor biológico (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). Consequentemente, a literatura científica associa a ingestão regular deste ultraprocessado à consolidação de padrões alimentares deletérios e ao incremento epidemiológico de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) em populações jovens (KIM; KIM, 2014).


PROCESSAMENTO TECNOLÓGICO E ASPECTOS MICROBIOLÓGICOS

Para melhor entender a composição nutricional e compreender o impacto nutricional do macarrão instantâneo, é importante conhecer seu fluxo tecnológico de produção. O processamento industrial compreende etapas sequenciais de mistura dos ingredientes, laminação da massa, corte em formatos ondulados e cozimento térmico a vapor, o qual promove a gelatinização parcial do amido (FU, 2008). A etapa crítica que define o perfil lipídico do alimento é a desidratação (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). Na maioria das linhas industriais vigentes no mercado nacional, esse processo ocorre por meio da fritura por imersão em óleo vegetal de palma a altas temperaturas (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014).


Esse método de desidratação rápida cria microcavidades na estrutura da massa devido à evaporação imediata da água, permitindo que o produto absorva grandes quantidades de óleo vegetal (FU, 2008). É essa alteração estrutural na etapa de fritura por imersão que possibilita a reidratação acelerada pelo consumidor final no ambiente doméstico em um intervalo de 3 a 5 minutos (SILVA, 2025). No entanto, essa praticidade tecnológica ocorre à custa de um incremento severo na fração de gorduras e no valor calórico total desse alimento, gerando tabelas nutricionais comerciais com elevados índices de lipídios saturados (SILVA, 2025).


Além disso, outro objetivo tecnológico dessa desidratação severa é a redução da atividade de água para valores inferiores a 0,40 (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). A atividade de água representa a fração de água livre na matriz do produto que está termodinamicamente disponível para viabilizar reações químicas, enzimáticas e, fundamentalmente, o metabolismo biológico (SILVA, 2025). Ao reduzir drasticamente esse índice por meio do processo térmico industrial, cria-se um ambiente desfavorável à sobrevivência celular (MEDEIROS; MELEIRO; PEREIRA, 2016). Do ponto de vista microbiológico, uma baixa atividade de água pode afetar alguns microrganismos, impedindo o crescimento de bactérias patogênicas, que causam doenças, e deteriorantes, que degradam o alimento. Assim, a baixa atividade de água confere a este produto uma extensa vida de prateleira em temperatura ambiente (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). 


Outro aspecto importante são os potenciais riscos biológicos e físicos decorrentes de falhas no empacotamento, armazenamento ou nas boas práticas de fabricação industrial que podem ocorrer ao longo da cadeia produtiva (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). Ensaios de microscopia realizados em marcas comerciais brasileiras identificaram a presença de sujidades leves na matriz do alimento, incluindo fragmentos de insetos que sinalizam a necessidade de maior rigor na fiscalização sanitária (SILVA, 2025). Adicionalmente, análises físicas laboratoriais contemporâneas revelaram um sério panorama de contaminação por materiais sintéticos, evidenciando a detecção e a impregnação de filamentos de microplásticos nas amostras analisadas (SILVA, 2025).


COMPOSIÇÃO NUTRICIONAL E IMPACTOS METABÓLICOS

A composição nutricional de uma porção comercial padrão, correspondente em média a 85 g (80 g de massa e 5 g de sachê), caracteriza-se por um valor calórico alto, ficando entre 400 e 500 kcal por embalagem (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). Os carboidratos fazem parte da maior fração de macronutrientes, provenientes do amido refinado da farinha de trigo (SILVA; FRANÇA; OLIVEIRA, 2017). Devido ao processo de moagem industrial, essas cadeias de glicose exibem alto índice glicêmico, induzindo respostas insulinêmicas agudas e rápida após digestão, o que reduz o tempo de saciedade pós-prandial (SILVA; FRANÇA; OLIVEIRA, 2017).


A fração lipídica oscila entre 10% e 20% do peso total do produto seco, com predomínio de ácidos graxos saturados decorrentes do óleo de fritura (SILVA; FRANÇA; OLIVEIRA, 2017). Entretanto, ensaios de composição proximal apontam que existem discrepâncias significativas entre os teores de lipídios reais mensurados em laboratório e os valores declarados nas tabelas de rotulagem das indústrias (SILVA, 2025). As proteínas, presentes em pequenos percentuais, possuem baixo valor biológico, por serem de origem vegetal e ausentes em aminoácidos essenciais, como a lisina (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014).


O componente de maior preocupação clínica, contudo, reside na concentração de sódio adicionada à matriz, concentrada majoritariamente no sachê de tempero (SILVA; FRANÇA; OLIVEIRA, 2017). Avaliações analíticas de conformidade em marcas populares de macarrão instantâneo revelaram que o teor de sódio por porção excede rotineiramente a marca de 1.000 mg (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021). Esses valores isolados são alarmantes ao considerar que a recomendação máxima diária de ingestão de sódio preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para um adulto saudável é de 2.000 mg (equivalente a 5 g de sal), estabelecendo esse mesmo teto de 2.000 mg como o Valor Diário de Referência (VDR) para fins de rotulagem nutricional. Na prática, análises laboratoriais e de rotulagem de marcas líderes de mercado revelam que o consumo de uma porção padrão de macarrão instantâneo convencional fornece entre 1.419 mg e 1.530 mg de sódio, o que compromete de 71% a 76% de todo o limite diário recomendado para o indivíduo (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021; SILVA et al., 2025). Essa concentração exacerbada é considerada de elevado risco metabólico e possivelmente prejudicial à saúde vascular de consumidores jovens (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021). Adicionalmente, análises de rotulagem apontam que as marcas comerciais frequentemente descumprem normas vigentes por omitirem a organização da lista de ingredientes em ordem decrescente de quantidade nos rótulos, dificultando a clara identificação dos aditivos pelo consumidor (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021). 


De acordo com essas características nutricionais, associado aos teores de compostos bioativos, fibras e minerais, além do sódio, insignificantes, é possível desenhar o perfil clássico de um alimento de "calorias vazias" (BRASIL, 2014). Tecnicamente, esse conceito define produtos alimentícios que possuem uma densidade energética desproporcionalmente alta, fornecendo uma sobrecarga calórica ao organismo sem fornecer, em contrapartida, densidade de micronutrientes essenciais, proteínas funcionais ou compostos reguladores necessários para a manutenção da homeostase metabólica (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021).


APELO ENTRE JOVENS ADULTOS E RISCO CARDIOMETABÓLICO

O consumo epidemiologicamente elevado desse ultraprocessado entre jovens adultos é sustentado pelo binômio conveniência-palatabilidade. A facilidade de transporte, o armazenamento prolongado e a simplicidade de preparo (exigindo apenas água fervente) alinham-se perfeitamente à rotina intensa de estudantes universitários e jovens trabalhadores que enfrentam a escassez de tempo no cotidiano contemporâneo (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021). Adicionalmente, a opção recorrente por essas refeições rápidas é impulsionada pela busca por conveniência e, muitas vezes, pela falta de habilidades culinárias desenvolvidas por esse público (SILVA et al., 2025). Sob a ótica industrial, as propriedades sensoriais do produto são potencializadas artificialmente por meio da adição de aromatizantes sintéticos e aditivos químicos (SILVA et al., 2025). A combinação de elevados teores de sódio e glutamato monossódico atua diretamente nos receptores papilares e nas vias dopaminérgicas centrais de recompensa, gerando hiperpalatabilidade e estimulando o consumo repetitivo (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014).


Evidências clínicas apontam que a exposição a esses componentes pode desencadear disfunções cardiometabólicas severas, como a hipertensão arterial, a formação de placas ateromatosas e a sobrecarga da função de filtração glomerular renal. Estudos observacionais conduzidos por Kim e Kim (2014) demonstraram uma correlação estatisticamente significativa entre a frequência semanal de consumo de macarrão instantâneo e a prevalência de componentes da síndrome metabólica, destacando-se o ganho de adiposidade visceral e a resistência à insulina, quadros sistêmicos diretamente associados ao consumo excessivo de ultraprocessados (KIM; KIM, 2014; SILVA et al., 2025).


Paralelamente, os estudos de Shin et al. (2014) aliados às análises sobre o impacto do consumo de sódio mostram que o aporte massivo de cloreto de sódio e gorduras saturadas contido nessas refeições rápidas induz alterações imediatas na hemodinâmica vascular e no perfil lipídico. Os dados demonstraram elevações agudas na pressão arterial sistólica e diastólica, além do aumento nas concentrações plasmáticas de triglicerídeos e elevação da fração LDL do colesterol sanguíneo, o que favorece o depósito lipídico nas paredes dos vasos. Essas alterações moleculares e estruturais aceleram o estresse oxidativo e o processo de aterogênese endotelial, elevando o risco de desenvolvimento precoce de eventos cardiovasculares agudos, diabetes mellitus tipo 2 e doenças renais neste grupo populacional (MENDES; QUEIROGA; SOUSA, 2021).


PERSPECTIVAS TECNOLÓGICAS

Diante deste cenário de risco à saúde e considerando a demanda de mercado por produtos convenientes, a ciência e a engenharia de alimentos têm direcionado esforços para a reformulação tecnológica desses produtos alimentícios. Pesquisas contemporâneas avaliam a substituição do processo clássico de fritura por sistemas avançados de secagem por ar quente forçado ou desidratação por micro-ondas, reduzindo drasticamente o teor final de lipídios na massa (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). No campo do enriquecimento da massa por subprodutos agroindustriais, o desenvolvimento experimental de macarrão instantâneo modificado com farinha de maçã provou ser uma alternativa viável para elevar o aporte de fibras solúveis na dieta (MEDEIROS; MELEIRO; PEREIRA, 2016). Adicionalmente, testes sensoriais demonstraram que o produto enriquecido com farinha de maçã alcançou um índice de aceitabilidade de 93% entre os provadores (MEDEIROS; MELEIRO; PEREIRA, 2016).


Outra vertente promissora repousa no enriquecimento nutricional da farinha de trigo através da incorporação de farinhas de leguminosas (como grão-de-bico e lentilha) e pseudocereais inteiros, elevando o aporte de fibras solúveis e proteínas de melhor perfil aminoacídico (FU, 2008). No segmento de promoção da saúde, pesquisas recentes obtiveram sucesso ao desenvolver uma formulação de macarrão instantâneo totalmente isenta de glúten a partir de farinha integral de grão-de-bico (SILVA et al., 2025). Esse produto inovador apresentou uma redução de mais de 50% no valor calórico total, em comparação com as versões convencionais de mercado, devido à eliminação completa da etapa industrial de fritura, que foi substituída pela secagem por forno (SILVA et al., 2025). No campo dos micronutrientes, estudos focam na substituição parcial do cloreto de sódio por cloreto de potássio e na utilização de especiarias naturais desidratadas em detrimento dos realçadores de sabor sintéticos nos sachês de condimento (GULIA; DHAKA; KHATKAR, 2014). A aplicação dessa tecnologia em matrizes saudáveis de grão-de-bico permitiu reduzir a concentração final de sódio do condimento para apenas 12% dos valores encontrados nas marcas líderes tradicionais (SILVA et al., 2025). Dessa forma, inovações abrem perspectivas fundamentais para que, no futuro, a indústria atenda às exigências de conveniência dos jovens adultos sem comprometer de forma tão severa o perfil cardiometabólico da população.


O macarrão instantâneo apesar de apresentar praticidade sociocultural e viabilidade econômica para o público jovem adulto, pode ser um fator de risco proeminente para o desequilíbrio metabólico, devido à sua formulação hipercalórica, hipossódica e lipídica. O consumo rotineiro desse alimento, contrasta com às diretrizes de saúde pública brasileiras, que priorizam a centralidade de sistemas alimentares baseados em itens in natura e minimamente processados. Apesar de estudos para alterações da composição deste produto, de forma a aumentar a sua saudabilidade, estão em desenvolvimento, ideal que estes produtos sejam consumidos de forma esporádica, aliado a outros hábitos saudáveis, como boa alimentação e exercícios físicos. Lembre-se de descascar mais e desembalar menos.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.

 

FU, B. X. Asian noodles: History, classification, raw materials, and processing. Food Research International, v. 41, n. 9, p. 888–902, 2008.

 

GULIA, N.; DHAKA, V.; KHATKAR, B. S. Instant Noodles: Processing, Quality, and Nutritional Aspects. Critical Reviews in Food Science and Nutrition, v. 54, n. 10, p. 1386–1399, 2014.

 

KIM, M. H.; KIM, W. J. Instant noodle consumption and dietary patterns are associated with metabolic syndrome in Korean adults. Nutrition Research and Practice, v. 8, n. 4, p. 445–451, 2014.

 

MEDEIROS, N. F. de; MELEIRO, V. C.; PEREIRA, S. Desenvolvimento de Macarrão Instantâneo com Farinha de Maçã e Adição de Cafeína e Taurina. Revista Processos Químicos, v. 10, n. 20, p. 235-239, 2016.

 

MENDES, A. L. N.; QUEIROGA, V. S; SOUSA, V. G. Avaliação da conformidade de macarrão instantâneo comercializados em Aparecida - PB, com enfoque na quantidade de sódio. Revista de Agroecologia no Semiárido (RAS), v. 5, n. 3, p. 45-53, 2021.

 

SHIN, H. J. et al. Instant noodle intake and dietary patterns are associated with cardiometabolic risk factors in Korea. The Journal of Nutrition, v. 144, n. 8, p. 1247–1255, 2014.

 

SILVA, B. K. D. B. Determinação da composição proximal e identificação de sujidades leves em macarrão instantâneo comercial. 2025. 36 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Tecnologia de Alimentos) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2025.

 

SILVA, M. F.; FRANÇA, P. R. L.; OLIVEIRA, S. N. Análise de rotulagem de macarrão instantâneo sabor carne. Revista Brasileira de Agrotecnologia, v. 7, n. 2, p. 304–308, 2017.

SILVA, S. R. C. et al. Desenvolvimento de macarrão instantâneo de grão-de-bico saudável e sem glúten e comparação nutricional com versões convencionais encontradas em mercados. DEMETRA: Alimentação, Nutrição & Saúde, v. 20, e081689, 2025.

 

WORLD INSTANT NOODLES ASSOCIATION (WINA). Global Demand for Instant Noodles. WINA, 2023. Disponível em: https://instantnoodles.org. Acesso em: 16 abr. 2026.

 

 
 
 

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