Temperos prontos: O ultraprocessado escondido na comida caseira

Os alimentos ultraprocessados têm ocupado um espaço cada vez mais significativo na construção e consolidação de hábitos alimentares da sociedade, caracterizando um aspecto nocivo para o estabelecimento da saúde nutricional do indivíduo, além do desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) ao longo de determinado tempo. Os temperos prontos são um grande exemplo de como os ultraprocessados conseguem se inserir disfarçadamente nas preparações diárias da população brasileira sem gerar incertezas sobre o seu uso, ao passo que provocam consequências silenciosas. De acordo com o material educativo governamental, “Com sabor e com saúde: temperos à base de ervas e especiarias”, disponibilizado pelo Ministério da Saúde (2022), os riscos do consumo estão associados aos produtos vendidos em embalagens de saquinhos, sachês e tabletes, e ao serem usados rotineiramente prejudicam a alimentação familiar.
Dessa forma, os alimentos classificados como ultraprocessados segundo a classificação NOVA, sofrem diversas etapas de processamento e, portanto, recebem adições de açúcares, sódio, óleos vegetais, e aditivos alimentares. Assim, o produto elaborado apresenta maior densidade energética, enquanto representa um perfil nutricional com qualidade inferior, ocasionado pela perda de nutrientes essenciais ao longo das transformações produtivas, como discutido no artigo “A new classification of foods based on the extent and purpose of their processing”, de Monteiro et al. (2010).
A popularização dos temperos prontos e sua inserção no cotidiano alimentar

Os temperos industrializados se tornaram populares entre os consumidores à medida que o cotidiano, após mudanças no estilo de vida, passou a exigir maior praticidade e rapidez. A alimentação tornou-se um dos principais alvos dessas transformações, sendo afetada pelo favorecimento do consumo de industrializados, especialmente os ultraprocessados, marcado pelo início de uma busca intensa por produtos hiperpalatáveis e sensorialmente atrativos. No Brasil, o estudo realizado por Louzada et al. (2023) demonstra o cenário explicitado ao identificar um aumento médio de 5,5% no consumo de alimentos ultraprocessados entre 2008–2009 e 2017–2018, evidenciando que, no segundo período analisado (2017–2018), esses alimentos representavam aproximadamente 20% do consumo energético total da população brasileira. Em síntese, os temperos industrializados inserem-se nesse padrão alimentar, uma vez que esses produtos apresentam elevada atratividade sensorial, proporcionada pela combinação de ingredientes e aditivos capazes de intensificar o sabor das preparações, tornando-os mais aceitos e preferidos pelos consumidores.
Dentro da embalagem: o que você está consumindo sem perceber

Os temperos industrializados comercializados já prontos no Brasil são produtos regulamentados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estabelece normas relacionadas à rotulagem de alimentos, incluindo informações obrigatórias atreladas à composição e ingredientes. A observação acerca destes marcadores nutricionais é fundamental para que a população tenha mais consciência sobre o que de fato está consumindo.
De modo geral, os temperos industrializados apresentam formulações compostas por elevadas concentrações de sódio, especiarias, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos alimentares. Dentro desta categoria, destacam-se os cubos de caldo de carne, produtos utilizados como condimentos prontos para conferir sabor às preparações. Na análise científica realizada por Vasconcelos (2018), ao avaliar esses produtos, foram observadas maiores concentrações de lipídeos e resíduos minerais fixos, características relacionadas à presença de ingredientes como sódio, glutamato monossódico e demais
componentes utilizados em sua formulação.
Os aditivos alimentares presentes nesses produtos desempenham diferentes funções tecnológicas, podendo contribuir para a conservação, estabilidade e manutenção das características do alimento, além de favorecerem maior atratividade sensorial ao consumidor. Entre os principais aditivos utilizados nos temperos prontos destaca-se o glutamato monossódico, um realçador de sabor amplamente empregado pela indústria alimentícia por intensificar a percepção gustativa dos alimentos, estando relacionado à amplificação do sabor umami, característica associada à maior aceitação sensorial das preparações.
Além da presença de aditivos e realçadores de sabor, os temperos industrializados apresentam como característica nutricional relevante o elevado teor de sódio. Mesmo utilizados em pequenas quantidades durante o preparo das refeições, esses produtos podem contribuir para uma maior ingestão desse mineral na dieta. Estudos que avaliaram a composição de alimentos processados e ultraprocessados comercializados no Brasil destacam a elevada presença de sódio nesses produtos, além da utilização de aditivos alimentares que adicionam esse componente, reforçando a importância da atenção ao consumo desses alimentos, visto que a ingestão excessiva de sódio está associada ao aumento do risco de doenças crônicas, como a hipertensão arterial (Martins et al., 2015).
Efeitos do consumo frequente de temperos prontos na qualidade da alimentação

O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda priorizar o consumo de alimentos in natura e minimamente processados em detrimento dos alimentos processados e, principalmente, dos ultraprocessados. Essa orientação busca promover uma alimentação adequada e saudável, reduzir o consumo excessivo de produtos ultraprocessados e fortalecer a educação alimentar e nutricional da população. Nesse contexto, os temperos prontos industrializados, em sua maioria classificados como alimentos ultraprocessados segundo a classificação NOVA, podem contribuir para o aumento da ingestão de sódio, açúcares, gorduras e aditivos alimentares, além de favorecer o consumo habitual de produtos ultraprocessados. O uso frequente desses produtos pode comprometer a qualidade nutricional da dieta, especialmente quando substituem temperos naturais e preparações culinárias elaboradas com alimentos in natura.
Evidências científicas reforçam a associação entre o consumo elevado de alimentos ultraprocessados e diversos desfechos adversos à saúde. De acordo com a revisão sistemática de revisões conduzida por Lane et al. (2024), a ingestão habitual desses alimentos está associada à pior qualidade do sono e ao aumento do risco de sintomas de ansiedade e depressão. Além disso, os autores identificaram associações entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e maior risco de doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, asma, doença de Crohn e colite ulcerativa, entre outras condições crônicas. Embora esses resultados se refiram ao conjunto dos alimentos ultraprocessados, eles reforçam a importância de moderar o consumo de produtos desta categoria, incluindo os temperos prontos, como estratégia para promover uma alimentação mais saudável.
Considerações finais
Por fim, destaca-se que, apesar da ampla utilização dos temperos industrializados e de sua capacidade de intensificar o sabor das preparações, seu consumo deve ocorrer de forma consciente e moderada. Por serem classificados como alimentos ultraprocessados, esses produtos apresentam em sua composição ingredientes e aditivos que podem influenciar a qualidade da alimentação e, quando consumidos frequentemente, estar associados a alterações metabólicas, cardiovasculares e gastrointestinais. Dessa forma, recomenda-se a valorização de alimentos in natura ou minimamente processados e de preparações culinárias, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, priorizando escolhas alimentares mais equilibradas.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014
BRASIL. Ministério da Saúde. Com sabor e com saúde: temperos à base de ervas e especiarias. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-alimentar-melhor/noticias/2022/com-sabor-e-com-saude-temperos-a-base-de-ervas-e-especiarias. Acesso em: 1 ago. 2026.
LANE, Melissa M. et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ, v. 384, 2024. e077310. DOI: 10.1136/bmj-2023-077310.
LOUZADA, Maria Laura da Costa et al. Consumption of ultra-processed foods in Brazil: distribution and temporal evolution 2008-2018. Revista de Saúde Pública, v. 57, p. 12, 2023. DOI: 10.11606/s1518-8787.2023057004744.
MARTINS, Carla Adriano et al. Sodium content and labelling of processed and ultra-processed food products marketed in Brazil. Public Health Nutrition, v. 18, n. 7, p. 1206-1214, 2015. DOI: 10.1017/S1368980014001736.
MONTEIRO, Carlos Augusto et al. A new classification of foods based on the extent and purpose of their processing. Cadernos de Saúde Pública, v. 26, n. 11, p. 2039-2049, 2010. DOI: 10.1590/S0102-311X2010001100005.
VASCONCELOS, Anderson Maciel de; SANTOS, Sandra Maria Lopes dos; DAMACENO, Marlene Nunes; CAVALCANTE, Antonio Belfort Dantas. Physicochemical characterization and comparison of labels of beef bouillon cubes. Food Science and Technology, v. 38, n. 4, p. (páginas), 2018. DOI: 10.1590/fst.11017.




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