A Pegada Ecológica do Pacote: O impacto das embalagens na saúde dos ecossistemas.

As embalagens são uma parte muito importante dos produtos ultra processados. Afinal, elas servem para a proteção, permitindo que ele seja transportado, distribuído e manuseado sem que o material interior seja contaminado. Além disso, muitas vezes, também servem para a proteção da integridade de sua forma, para que o produto não seja quebrado, arranhado ou sujo. No caso de alimentos, funcionam também para a sua conservação, mantendo a sua qualidade e segurança, minimizando a sua deterioração, e portanto, prolongando a sua vida útil. São importantes para a informação do consumidor, já que nas embalagens constam os requisitos de rotulagem, tabela nutricional, instruções de armazenamento doméstico e de preparação de uso. E não menos importante, as embalagens aumentam a praticidade do produto, por exemplo, nos casos das que possuem tampa dosadora, são de fácil abertura, permitem o fechamento após aberto, permitem o aquecimento em micro-ondas, entre outras características (JORGE, 2013).
As embalagens podem ser classificadas de diferentes formas, por exemplo, quanto ao nível da embalagem (primária: aquela que envolve o produto diretamente, como o pacote; secundária, que envolve os pacotes; e terciária, sendo comumente uma grande caixa de papelão que abriga as embalagens secundárias), quanto à estrutura de seus materiais (rígidas, semirrígidas e flexíveis) e aos materiais propriamente ditos (metálica, plástica, vidro ou papel), todas com suas diferentes utilidades (BARÃO, 2011).

Os produtos que compramos quase nunca são apenas aquilo que queremos consumir. Por exemplo, ao comprarmos um pacote de biscoito, estamos de fato comprando o alimento, mas ao mesmo tempo, estamos consumindo aquela marca que pode nos atrair através de uma embalagem. Podemos estar consumindo a ideia de que aquele produto é mais saudável ao apresentar menos açúcares do que outros da concorrência, podemos nos sentir ajudando os animais caso seja um produto vegano, e muito mais. Todas as informações citadas acima possuem, ao menos, um ponto em comum, sendo este: tudo isso vem escrito na embalagem.
É bem possível que boa parte das informações acima você já saiba ou tenha algum breve conhecimento. Mas o que acontece com a embalagem assim que o produto é consumido?
Quando descartados, uma parte desse material vai para reciclagem. No caso do plástico - que é de difícil reciclagem, se considerado a mistura de diferentes tipos de plástico e a mistura do plástico com outros materiais -, mundialmente falando, apenas 9% é reciclado, número que no Brasil reduz para apenas 1% (USP, 2024). No ano de 2019, apenas 11% de todo o vidro produzido no país foi reciclado, o que se dá devido ao seu baixo valor de mercado, alto peso e dificuldade de transporte. O Brasil, no entanto, é uma referência mundial na reciclagem de latas de alumínio, chegando a aproveitar 99% de todo o material (CNN Brasil, 2024).
No entanto, a maior parte acaba se acumulando em lixões e aterros sanitários, ou poluindo as ruas, os rios e os oceanos - onde estima-se que há mais de 80 milhões de toneladas (DUARTE, 2022). Todo esse acúmulo de material no meio ambiente pode trazer más consequências como a poluição de fontes de água potável e do solo; incentivar a proliferação de vetores de agentes patogênicos aos seres humanos e aos próprios animais; favorecer a chance de acidentes ambientais como enchentes e deslizamentos; e afetar, de modo geral, a vida dos humanos, dos demais animais e das plantas em todos os tipos de ambiente (HENRIQUES-TUMITANGUA, 2026). Por exemplo, uma simples sacola plástica pode demorar mais de 100 anos para se decompor na natureza. Agora, leve em consideração que no Brasil se consome cerca de 210.000 toneladas de plástico anualmente (MIRANDA & SEO, 2015).
A presença de uma quantidade tão grande de plástico no meio ambiente favorece a formação de microplásticos. Um estudo relatou a presença de microplásticos no comércio de três diferentes verduras de uma região (STAFFEN et al., 2025). Os microplásticos já possuem o impacto relatado na saúde humana: há o aumento da vulnerabilidade ao desenvolvimento de distúrbios neuronais, acúmulo do microplástico no organismo, inflamação e disfunção da barreira intestinal, ou mesmo o dano oxidativo nas células expostas ao material (CRUZ & ALMEIDA, 2023).
O que podemos fazer para reduzir a quantidade de embalagens descartadas é incentivar o consumo no comércio local: como comprar frutas e verduras na feira da cidade, onde a produção provavelmente foi feita na própria região, dispensando o uso de algumas embalagens; optar pelo sistema de refil, como reutilizar potes que podem ser reaproveitados ou sacolas reutilizáveis; evitar o excesso de serviços de delivery, já que estes favorecem a utilização de materiais descartáveis; auxiliar na coleta seletiva dos materiais, facilitando o seu processo de reciclagem; e sobretudo, reduzir o consumo de ultra processados, que geralmente possuem um grande número de embalagens para cada produto (TEIXEIRA & MOURÃO, 2021).
No entanto, apenas a ação individual não é o bastante, é preciso agir em coletivo, visto que a responsabilidade sobre este tema é partilhada. Algumas formas coletivas de lidarmos com o problema são exigindo metas ambientais das corporações envolvidas no tratamento destes materiais; a logística reversa do produto - que trata de pensar o caminho que esse material faz após sair da casa do consumidor; utilizar embalagens reutilizáveis ou biodegradáveis, que não agridam tanto ao meio ambiente; e até mesmo pressionar os órgãos responsáveis sobre a regulação das embalagens descartáveis (CORTEZ, 2011).
Embora, quando pensamos em alimentação, o que venha à mente seja a nutrição do corpo e os benefícios de comer alimentos saudáveis, ao pensar numa escala global, o que consumimos e a forma como consumimos podem afetar não somente a nossa saúde individual, mas também a saúde regional e global. Por isso, escolher bem os produtos que decidimos ingerir pode trazer impactos muito maiores do que pensamos.
REFERÊNCIAS:
BARÃO, M. Z. Embalagens para produtos alimentícios. Instituto de Tecnologia do Paraná–TECPAR. 2011.
CNN Brasil. Vidro é um dos itens menos reciclados no Brasil. CNN BRASIL, 2024. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/vidro-e-um-dos-itens-menos-recicla dos-no-brasil/>. Acesso em: 30 de maio de 2026.
CORTEZ, A. T. C. Embalagens: o que fazer com elas?. Revista Geográfica de América Central, v. 2, p. 1-15. 2011.
CRUZ, E. M. T. da & ALMEIDA, F. R de. Exposição a nano e microplásticos e seus impactos na saúde humana: uma revisão da literatura. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 9, n. 6, p. 2355-2375. 2023.
DUARTE, W. de J. B. Lixo plástico: uma ameaça à vida marinha. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, v. 8, n. 8, p. 22-31. 2022.
HENRIQUES-TUMITANGUA, C. A. Impactos ambientais e suas consequências para a saúde pública de Moçâmedes. Sociedade e Tecnologia, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 57–72. 2026.
JORGE, N. Embalagens para alimentos. São Paulo: Cultura Acadêmica. 2013.
MIRANDA, C. da S. & SEO, E. S. M. Degradação de Embalagens Plásticas Oxi-Biodegradáveis e Comuns. Holos Environment, v. 15, n. 2, p. 171-179, 2015.
STAFFEN, H. C. S.; GUIMARÃES, G. dos A.; HATTORIL, G. Y. & SANT'ANNA, B. S. Microplásticos em alimentos de origem vegetal na cidade de Itacoatiara (AM), Brasil. Revista Brasileira de Ciências Ambientais (RBCIAMB), v. 60, p. e2244. 2025.
TEIXEIRA, K. L. & MOURÃO, F. V. O descarte de embalagens de delivery em tempos de pandemia. Revista CIS, v. 18, n. 1. 2021.
USP. Apenas 9% do plástico global é reciclado; no Brasil, a porcentagem é ainda menor. Jornal da USP, 2024. Disponível em: <https://jornal.usp.br/radio-usp/apenas-9-do-plastico-global-e-reciclado-no-brasil-porcentagem-ainda-e-menor/>. Acesso em: 30 de maio de 2026.




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