O consumo de bebidas energéticas e suas associações com riscos à saúde

A categoria de alimentos ultraprocessados abrange as formulações industriais contendo substâncias extraídas dos alimentos integrais ou sintetizadas em laboratório, direcionando significativamente a atenção para os industrializados sólidos, segundo classificação do Guia Alimentar para a População Brasileira. Dessa forma, a ampla comercialização dos produtos líquidos elaborados a partir da utilização de aditivos alimentares e do excesso de açúcares livres, é mascarada pela falta de notoriedade, sendo consumidos sem a consideração de que são produtos que apresentam riscos à saúde.
As bebidas energéticas expõem um claro exemplo do cenário descrito, já que são composições gaseificadas rapidamente adquiridas nas prateleiras dos mercados e contêm elevadas concentrações de estimulantes do sistema nervoso central, além da presença de corantes artificiais, aromatizantes e conservantes, que visam a estabilização do produto. O aumento do consumo e o fácil acesso dos reconhecidos energéticos têm se estabelecido cada vez mais entre a população adolescente e jovem adulta, contribuindo veladamente com os potenciais efeitos adversos associados aos componentes que prometem alcançar a melhora do indivíduo em relação ao desempenho físico e cognitivo almejado (Ibrahim; Iftikhar, 2014).
Motivações e finalidades associadas ao consumo de bebidas energéticas

As bebidas estimulantes se apresentam como produtos práticos, que atendem especificamente às necessidades dos grupos que necessitam de uma fonte rápida e acessível de substâncias que renovem a energia e inibem a sensação de exaustão e cansaço, seja mental ou físico. De acordo com a revisão sistemática conduzida por Protano C et al. (2023), o contexto da comunidade acadêmica demonstra o exemplo nítido de como o consumo desenfreado é estabelecido a partir das alegações sobre a melhora da concentração, desempenho atlético e o estímulo do estado de alerta. A partir destas afirmações, ao identificar 42,9% como o valor estimado do consumo destas bebidas em meio a estudantes de graduação entre 71 estudos (2007 entre 2021), torna-se evidente a relação entre os universitários e a confiança depositada acerca da combinação entre os açúcares, cafeína, aminoácidos (como a taurina) e compostos de ervas adaptógenas (como o ginseng), como desencadeadores de benefícios sobre o sistema nervoso sem gerarem complicações de longo prazo ao organismo.
Além disso, a ação ergogênica é uma característica intensamente visada e explorada pelos indivíduos fisicamente ativos. Em vista disso, as capacidades benéficas atreladas a melhora do desempenho físico e do aumento da força, foram discutidos no artigo “Acute effects of commercial energy drink consumption on exercise performance and cardiovascular safety: a randomized, double-blind, placebo-controlled, crossover trial” ,de Banks NF et al. (2024), através de relatos sobre progresso da performance em provas de tempo, desempenho aeróbio submáximo, somado a demonstração de força e resistência.
Apesar da constante inovação sobre as estratégias de marketing a respeito do aumento das necessidades de venda e das alegações positivas sobre as bebidas energéticas, a sociedade deve considerar as consequências de saúde estabelecidas sobre o consumo recorrente destes ultraprocessados, afetando principalmente o sistema nervoso central e o sistema cardiovascular (Ruiz; Scheer, 2018).
Repercussões do consumo de bebidas energéticas sobre organismo

Os perigos associados à ingestão excessiva de alimentos ultraprocessados na dieta habitual de um indivíduo, é evidenciada pelas doenças e alterações do perfil individual metabólico ao longo dos anos, sendo as principais consequências desse consumo desenfreado denominadas doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como constatado na análise científica de Lv JL et al. (2024). Essas patologias são condições de saúde, como por exemplo, obesidade, diabetes mellitus e hipertensão arterial.
A alteração do sistema cardiovascular ocasionada pelo elevado consumo de bebidas energéticas, é um fator significativo sobre as repercussões relacionadas aos riscos coronários. Apesar da ingestão moderada de cafeína não ser classificada como um fator de risco para a saúde cardíaca, as bebidas estimulantes apresentam elevado teor de cafeína e favorecem potenciais arritmias, taquicardia e hipertensão. Segundo a pesquisa científica realizada por Mandato J et al. (2025), os resultados estimaram uma variação expressiva no aumento da frequência cardíaca (60,9%), pressão arterial sistólica (53,8%), pressão arterial diastólica (61,5%) e prolongamento do intervalo QTc (63,2%). Os resultados obtidos indicam uma associação sensível em relação ao consumo, exigindo o máximo de atenção para o conteúdo estimulante constituinte nas bebidas energéticas, principalmente para indivíduos com arritmias e cardiopatias pré-existentes.
Embora o uso de energéticos por jovens e adolescentes seja voltado a obtenção de energia de modo imediato e eficaz, o teor de cafeína nesses produtos oscila de 50mg e 505mg por porção, comparado a 90mg em 250ml de café, essa quantidade total influencia a desregulação do ritmo circadiano, bloqueando receptores de adenosina após a ingestão e facilitando a sonolência no período diurno, agravando a dificuldade em realizar atividades comuns do cotidiano durante esse período. Adicionalmente, foram descritos demais efeitos, entre eles: prevalência de cáries, palpitações cardíacas, ansiedade, insônia e estresse grave (Lima et al. 2023 e Ajibo et al. 2024).
Os impactos retratados no artigo “Consumption of energy drinks by children and young people: a systematic review examining evidence of physical effects and consumer attitudes”, de Ajibo et al. (2024), abordam notoriamente a sensibilidade da saúde mental acerca do consumo excessivo de bebidas energéticas, através dos desfechos estabelecidos. Sendo assim, os resultados descritos foram fortemente associados ao aumento do sofrimento psicológico moderado a alto, exercendo influência sobre tentativas de suicídio e aumento de sintomas de desatenção, pânico e depressão vinculadas ao transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Considerações finais
Por fim, destaca-se que, apesar do incentivo social e dos apelos comerciais, a ingestão desmedida dessas bebidas deve ser analisado de forma atenta, já que o consumo de alimentos categorizados como ultraprocessados gera riscos à saúde que se agravam à longo prazo, provocando alterações metabólicas significativas que sobrecarregam o organismo e ameaçam a homeostase corporal.
Referências
AJIBO, C.; VAN GRIETHUYSEN, A.; VISRAM, S.; LAKE, A. A. Consumption of energy drinks by children and young people: a systematic review examining evidence of physical effects and consumer attitudes. Public Health, v. 227, p. 274-281, 2024. DOI: 10.1016/j.puhe.2023.08.024.
BANKS, N. F.; ROGERS, E. M.; HELWIG, N. J.; et al. Acute effects of commercial energy drink consumption on exercise performance and cardiovascular safety: a randomized, double-blind, placebo-controlled, crossover trial. Journal of the International Society of Sports Nutrition, v. 21, n. 1, p. 2297988, 2024. DOI: 10.1080/15502783.2023.2297988.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2014
IBRAHIM, N. K.; IFTIKHAR, R. Energy drinks: getting wings but at what health cost? Pakistan Journal of Medical Sciences, v. 30, n. 6, p. 1415-1419, 2014. DOI: 10.12669/pjms.306.5396.
LIMA, R. J. C. P.; BATALHA, M. A.; RIBEIRO, C. C. C.; LIMA NETO, P. M.; SILVA, A. A. M.; BATISTA, R. F. L. Modifiable behavioral risk factors for NCDs and sleep in Brazilian adolescents. Revista de Saúde Pública, v. 57, p. 60, 2023. DOI: 10.11606/s1518-8787.2023057004957.
LV, J. L.; WEI, Y. F.; SUN, J. N.; et al. Ultra-processed food consumption and metabolic disease risk: an umbrella review of systematic reviews with meta-analyses of observational studies. Frontiers in Nutrition, v. 11, p. 1306310, 2024. DOI: 10.3389/fnut.2024.1306310.
MANDATO, J.; KOLA, R.; TYSON, T.; LAFFIN, L.; BALES, R. The effects of energy drinks on the cardiovascular system: a systematic review. Current Cardiology Reports, v. 27, n. 1, p. 156, 2025. DOI: 10.1007/s11886-025-02293-w.
PROTANO, C.; VALERIANI, F.; DE GIORGI, A.; et al. Consumption patterns of energy drinks in university students: a systematic review and meta-analysis. Nutrition, v. 107, p. 111904, 2023. DOI: 10.1016/j.nut.2022.111904.
RUIZ, L. D.; SCHERR, R. E. Risk of energy drink consumption to adolescent health. American Journal of Lifestyle Medicine, v. 13, n. 1, p. 22-25, 2019. DOI: 10.1177/1559827618803069.




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