Biscoitos recheados e bolachas de pacote: ultraprocessados comuns na lancheira escolar
- Gustavo Teixeira
- há 2 dias
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A alimentação infantil tem passado por profundas transformações nas últimas décadas, especialmente com a crescente presença de alimentos ultraprocessados no cotidiano das famílias. Entre esses produtos, destacam-se os biscoitos recheados e bolachas industrializadas, frequentemente incluídos na lancheira escolar por sua praticidade, aceitação sensorial e forte apelo publicitário. No entanto, por trás da aparência inofensiva e da conveniência, esses alimentos representam uma importante preocupação em saúde pública.
Os biscoitos recheados são classificados como alimentos ultraprocessados, de acordo com a classificação NOVA, sendo os ultraprocessados formulações industriais compostas majoritariamente por ingredientes refinados e aditivos, com pouca ou nenhuma presença de alimentos in natura (LOUZADA et al., 2023).

O consumo desses produtos entre crianças tem aumentado de forma significativa. Estudos indicam que os ultraprocessados já representam uma parcela expressiva da ingestão calórica diária em diferentes populações, estando associados a dietas com maior teor de gorduras, açúcares e sódio, e menor conteúdo de fibras e proteínas (BIELEMANN et al., 2015; MAIA et al., 2022). No contexto infantil, essa realidade é ainda mais preocupante, pois os hábitos alimentares formados na infância tendem a persistir ao longo da vida.
No caso específico dos biscoitos recheados, análises de rotulagem nutricional demonstram que esses produtos apresentam altos teores de açúcares adicionados, gorduras saturadas e sódio, com variações significativas entre marcas e desequilíbrio nutricional decorrente da alta densidade calórica (SILVA et al., 2017). Essa composição nutricional está diretamente relacionada ao aumento do risco de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes tipo 2 e hipertensão arterial (NILSON et al., 2023).
Além da composição nutricional desfavorável, outro fator crítico é a frequência de consumo. A praticidade e o baixo custo tornam esses produtos escolhas recorrentes para compor lanches escolares. Somado a isso, estratégias de marketing direcionadas ao público infantil influenciam diretamente as preferências alimentares das crianças.
Diversos estudos têm demonstrado a associação entre o consumo de ultraprocessados e desfechos negativos em saúde (LOUZADA et al., 2023). Em crianças, essa associação é ainda mais crítica, uma vez que o organismo encontra-se em fase de desenvolvimento.
Em muitos casos, a falta de tempo e a praticidade levam à escolha de alimentos prontos. Portanto, embora os biscoitos recheados e bolachas de pacote sejam frequentemente percebidos como opções práticas e inofensivas, seu consumo regular representa um risco significativo à saúde infantil.

O marketing voltado para crianças em embalagens de salgadinhos ultraprocessados utiliza elementos divertidos e atraentes, como personagens de animações famosas, para influenciar diretamente as decisões alimentares. Frases como "Eu gosto daquele com os Minions", frequentemente ditas por crianças em supermercados, ilustram como a ligação de produtos ultraprocessados ricos em sódio, açúcares e gorduras com personagens divertidos gera preferências emocionais precoces, priorizando o prazer instantâneo em detrimento de alternativas nutricionalmente equilibradas. Essa tática, bastante abordada em pesquisas sobre publicidade voltada para crianças, intensifica o apelo sensorial e emocional, favorecendo o consumo elevado de alimentos com baixa qualidade nutricional desde a infância (SATO et al., 2022).

Uma pesquisa conduzida em uma cidade brasileira de médio porte mostrou que a oferta de alimentos ultraprocessados varia de acordo com a natureza do comércio e os fatores sociodemográficos da região. Supermercados, mercados de bairro, padarias e lojas de conveniência exibiram os maiores índices de disponibilidade desses itens, particularmente em áreas periféricas com menor renda familiar, maior percentual de população de cor e mais integrantes por domicílio. Essa organização territorial intensifica a fragilidade nutricional dessas comunidades, definindo regiões como "pântanos alimentares" (food swamps), em que alternativas saudáveis são raras em relação aos produtos ultraprocessados (SERAFIM et al., 2022).
Em suma, embora biscoitos recheados e bolachas sejam frequentemente vistos como opções práticas, seu consumo regular representa um risco significativo à saúde infantil, estando associado ao aumento de doenças crônicas. Esse cenário é agravado por estratégias de marketing infantil e pela vulnerabilidade nutricional em 'pântanos alimentares', onde o acesso a opções saudáveis é restrito. Portanto, a redução desses itens é fundamental para romper um ciclo de consumo que prioriza a conveniência em detrimento da qualidade nutricional necessária para o desenvolvimento das crianças.
Referências
BIELEMANN, Renata Martins; BARROS, Aluísio J. D.; CASCAITAL, Kátia; VIEIRA, Márcia Regina; MATOS, Stela Maris de; MALTA, Deborah Carvalho; SZARFARC, Sandra C.; SANTIAGO, Catalina; MONTEIRO, Carlos Augusto. Consumo de alimentos ultraprocessados e impacto na dieta de adultos jovens. Revista de Saúde Pública, v. 49, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rsp/a/6wjMXZkvzWgCHvsZJyFHzgt/?format=pdf&lang=pt.
LOUZADA, Maria Laura da Costa; CRUZ, Gabriela Lopes da; SILVA, Karina Augusta Aparecida Nogueira; GRASSI, Ana Giulia Forjaz; ANDRADE, Giovanna Calixto; RAUBER, Fernanda; LEVY, Renata Bertazzi; MONTEIRO, Carlos Augusto. Consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil: distribuição e evolução temporal 2008–2018. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 57, p. 12, 2023. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/rsp/2023.v57/12/pt/.
MAIA, Camila Medeiros; LIMA, Severina Carla Vieira Cunha de; FERREIRA, Hanna Santos; COSTA, Maria de Jesus Coelho de; SILVA, Raquel de Souza; NAVARRO, Ana Maria. Consumo de alimentos ultraprocessados por crianças de uma coorte de nascimento brasileira aos 24 meses de idade e fatores associados. Revista de Saúde Pública, v. 56, 2022. Disponível em: https://www.scielosp.org/pdf/rsp/2022.v56/79/pt.
NILSON, Eduardo Augusto Fernandes; FERRARI, Giselle; LOUZADA, Maria Laura da Costa; LEVY, Renata Bertazzi; MONTEIRO, Carlos Augusto; REZENDE, Leandro Fórnias Machado de. Premature deaths attributable to the consumption of ultraprocessed foods in Brazil. American Journal of Preventive Medicine, v. 64, n. 1, p. 129-136, 2023. DOI: 10.1016/j.amepre.2022.08.013. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/003145788.
SATO, Priscila de Morais; LEITE, Fernanda Helena Marrocos; KHANDpur, Neha; MARTINS, Ana Paula Bortoletto; MAIS, Laís Amaral. "I like the one with minions": the influence of marketing on packages of ultra-processed snacks on children's food choices. Frontiers in Nutrition, v. 9, artigo 920225, 2022. DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2022.920225. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35942170/.
SERAFIM, Patricia; BORGES, Camila Aparecida; CABRAL-MIRANDA, William; JAIME, Patricia Constante. Ultra-processed food availability and sociodemographic associated factors in a Brazilian municipality. Frontiers in Nutrition, v. 9, artigo 858089, 2022. DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2022.858089. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35529462/.
SILVA, Mônica Junqueira da; CARMO JUNIOR, David do; DIAS, Rose Mary Feliciano; PINTO, Laise Cedraz. Avaliação da rotulagem de biscoitos recheados comercializados em Salvador, BA: enfoque na qualidade nutricional. Higiene Alimentar, v. 31, n. 270/271, p. 130–135, jul./ago. 2017. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2017/08/848957/270-271-jul-ago-2017-130-135.pdf.




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