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Industrializados Proteicos: Será que são realmente saudáveis?

  • Isabela Borges Cornelio
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura

Atualmente, a indústria "Wellness", em português, indústria do bem-estar, é categorizada como um mercado multibilionário que envolve o incentivo de atividades e de estilos de vida saudáveis, em que apenas entre 2020 e 2022, movimentou cerca de 5,6 trilhões de dólares de forma global. Dessa quantia, o Brasil é responsável por atingir, aproximadamente, 96 bilhões de dólares, com destaque aos setores de cuidados pessoais e alimentação saudável, colocando o país em 12º lugar no ranking mundial no ano de 2024, segundo o Global Wellness Institute (GWI).


Dado isso, com o crescente marketing voltado à alimentação saudável, começou a ser instaurada uma idealização da proteína como um macronutriente que deve ser consumido a todo momento e em quantidades exacerbadas. Essa obsessão intensificou a fortificação de produtos alimentícios (como por exemplo, em laticínios, barrinhas, snacks, bebidas, chocolates em pó e até na água) com suplementos proteicos em suas formulações (advindo de fontes como, o whey protein, a albumina, o glúten e o extrato de soja).

 

Funções da proteína e seus malefícios quando em excesso 


Apesar do consumo da proteína ser, realmente, essencial por possuir funções estrutural, de defesa, regulatória, enzimática, transportadora, contrátil e nutritiva (por auxiliar na saciedade), atuando no funcionamento e manutenção de órgãos vitais; quando consumida em excesso a longo prazo, pode apresentar riscos para indivíduos com histórico de insuficiência renal e hepática. Já quanto a indivíduos saudáveis, como precaução, recomenda-se que a ingestão proteica máxima não seja superior ao dobro das recomendações pré-determinadas pelas DRIs (Ingestão Dietética de Referência). Vale ressaltar, que o consumo excessivo de proteínas, visando uma potencialização da síntese muscular em indivíduos saudáveis, não ocorre, visto que as proteínas não sintetizadas pelo sistema muscular se tornam um excesso, sendo excretadas ou sofrendo o processo de gliconeogênese (via que gera acúmulo de gordura em situações em que o consumo calórico proteico é maior do que o gasto ao longo do dia) de acordo com um estudo publicado no site da Universidade de Utah.

 

Produtos ultraprocessados enriquecidos com proteína e seus riscos 


Um outro problema adjunto a essa questão é a adição de proteína à alimentos ultraprocessados (caracterizados por serem formulações industriais prontas para consumo, feitas, majoritariamente, de substâncias sintetizadas em laboratório ou derivadas de alimentos com pouco ou nenhum ingrediente in natura de acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira) que carregam uma falsa promessa de ser algo saudável para o consumidor. Muitos destes produtos são fontes de gordura (que pode ser usada para realçar o sabor, substituindo o açúcar em produtos “fits” e vice e versa), açúcares (seja tradicional ou na forma de adoçantes), sódio, alto teor calórico e outros, ou seja, apesar de proteicos podem ser alimentos de baixa qualidade nutricional.


Assim, o consumo desenfreado de ultraprocessados proteicos, sem necessidade ou orientação profissional, pode resultar em alguns riscos, como a sobrecarga renal e hepática, auxiliando na rápida progressão da doença/insuficiência renal; complicações nos ossos pela possível acidez fisiológica causada pelos aminoácidos sulfurados; alteração da composição da microbiota intestinal saudável pelo aumento de compostos nitrogenados no intestino grosso; e a ascendência de doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2 e câncer. Além disso, um novo estudo realizado pelas universidades de Pittsburgh e Missouri em camundongos, mostrou que o aminoácido leucina produz uma sinalização que ativa a formação de placas ateroscleróticas, podendo aumentar a incidência de desenvolvimento da aterosclerose.

 

Como aumentar a eficiência no consumo de proteínas visando a síntese muscular? 


Geralmente, o consumo intensivo desse macronutriente está relacionado com o interesse dos indivíduos em ganhar massa e força muscular, entretanto, como já mencionado, o consumo de ultraprocessados com fortificação proteica pode não ser a melhor escolha. Assim, outras formas de potencializar o consumo de proteínas a fim de gerar uma resposta máxima da síntese proteica muscular esquelética seria realizar uma ingestão diária total de proteínas suficiente para compor essas reações, em que vale ressaltar que, de acordo com novas evidências, é mais relevante para o efeito anabólico atingir essa meta total de consumo até o final do dia do que a preocupação com a distribuição padronizada dessas proteínas por refeição. Assim, a escolha desse fracionamento pode ser realizada de acordo com a rotina do indivíduo a fim de favorecer uma maior adesão à dieta e saciedade. Tudo isso somado a um consumo calórico adequado, a prática de exercícios físicos e o sono regular. Também cabe mencionar, que caso ainda exista a necessidade do uso de suplementação, ela deve ser sempre orientada por um nutricionista.


Além disso, o consumo de ultraprocessados pode ser evitado, priorizando um maior consumo de carnes brancas (por possuírem menos gordura saturada), leite, ovos e leguminosas, principalmente, quando combinadas com cereais (como o arroz com feijão, por exemplo), se tornando fontes completas de proteínas. Ademais, a organização será sua grande aliada! Logo, fazer receitas práticas para o dia a dia, como sanduíches com recheio de atum/frango desfiado/ovo e salada; e frutas com iogurte e aveia, poderão te auxiliar na sua jornada, além de serem opções muito mais saudáveis que os alimentos ultraprocessados.


Por último, vale ressaltar que esse texto não foi produzido com a finalidade de demonizar o uso de industrializados enriquecidos com proteína, visto que, a depender da necessidade e da orientação profissional, seu uso pode gerar uma maior praticidade durante o dia a dia. Logo, o equilíbrio é a chave do verdadeiro “Wellness”, que deve priorizar a saúde a longo prazo, em vez de modismos e da busca rápida por corpos “ideais” através da suplementação excessiva de proteína.

 

Bibliografia 


BRASIL. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf. Acesso em: 15 mar. 2026.


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