Misturas para bolo em pó: Praticidade ou armadilha?
- Gustavo Teixeira
- há 1 dia
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As massas de bolo em pó, como conhecemos hoje, surgiram nos EUA na década de 1930, durante à Grande Depressão, em um período de dificuldades econômicas. Contudo elas só se tornaram popular após a Segunda Guerra Mundial, nos anos 1950. Isso aconteceu principalmente por causa da conveniência que esse produto proporcionava, especialmente em um contexto em que as mulheres americanas, antes ocupavam apenas a posição de dona de casa, passaram a ingressar massivamente no mercado de trabalho (OVERBY, 2018).
Inicialmente as grandes indústrias da época desenvolveram misturas com ingredientes como: farinha de trigo, açúcar refinado, gordura vegetal hidrogenada, ovos desidratados em pó, leite em pó, levedura química, sal e flavorizantes artificiais. Para o bolo ficar pronto bastava adicionar apenas água e assar (OVERBY, 2018).
Composição e Diferenças Industriais

Usualmente as misturas de bolo em pó prontas apresentam na sua formulação ingredientes conhecidos, cada um com uma função importante. A farinha de trigo tem como finalidade dar estrutura e volume para os bolos e constitui aproximadamente 40% da mistura. O açúcar refinado confere dulçor, textura e umidade e constitui 45% da formulação, A gordura vegetal constitui cerca de 12% e é responsável pela maciez e umidade. O ovo em pó vai permitir a emulsificação e a formação de estrutura na massa, representando cerca de 5%. Já o leite em pó, com aproximadamente 4%, contribui para o sabor e também oferece nutrientes necessários para que ocorra a reação de Maillard, que dá origem a formação daquela casquinha dourada do bolo. na formulação utiliza aproximadamente 3,5% de fermento químico sendo o principal e único responsável pela Levedação; e emulsificante que vai colocar na formulação cerca de 0,5% que o principal ingrediente responsável pela estabilidade do bolo (CICHELLI, 2000).
Impactos na Saúde e Consumo
Em um estudo conduzido por IGLESIA e ABE-MATSUMOTO (2021), foram avaliadas 12 amostras de misturas para bolo. Um dos principais problemas encontrados foi o uso de imagens de frutas cítricas nos rótulos para indicar o sabor do produto, mesmo sem a presença dessas frutas na lista de ingredientes. Esse tipo de prática pode confundir e induzir o consumidor ao erro.

Outro ponto preocupante foi a ausência, no painel principal de alguns rótulos, da informação sobre a presença de corantes e aromatizantes. Isso infringe a legislação brasileira, que exige que esses aditivos sejam claramente informados. Essas indicações são importantes porque ajudam o consumidor a entender o que está comprando e a fazer escolhas de acordo com seus hábitos e preferências alimentares (IGLESIA; ABE-MATSUMOTO, 2021).
Os bolos industrializados e suas misturas prontas são exemplos de alimentos ultra-processados. De forma simples, ultra-processados são produtos feitos pela indústria com muitos ingredientes e aditivos, como corantes, aromatizantes, emulsificantes e conservantes, geralmente com pouca ou nenhuma presença de alimentos in natura. Eles são formulados para serem práticos, durarem mais tempo e terem sabor e aparência atrativos (MONTEIRO et al, 2019).
No Brasil, o consumo de ultra-processados tem aumentado de forma significativa. Estima-se que cerca de 18% das calorias diárias da população já vêm desses produtos, e os bolos estão entre os 10 ultra-processados mais consumidos (LOUZADA; GABE, 2025).
O consumo frequente e em excesso desses alimentos pode trazer prejuízos à saúde. Estudos recentes mostram que dietas ricas em ultraprocessados estão associadas a maior risco de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. Além disso, alguns aditivos presentes nesses produtos podem estar relacionados a processos inflamatórios no organismo e alterações na microbiota intestinal (ZHANG et al., 2025).
Fazendo escolhas conscientes

Cada país possui um guia alimentar que orienta a população a fazer escolhas mais saudáveis no dia a dia, ajudando na prevenção de doenças relacionadas à alimentação. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda evitar o consumo de alimentos ultra-processados, como as misturas prontas para bolo, e não estabelece uma quantidade considerada segura para consumo (BRASIL, 2014).
Por outro lado, alguns estudos científicos sugerem limites. De acordo com ZHANG et al. (2025), o consumo de ultra-processados deve ser inferior a 10% das calorias diárias. Em uma dieta de 2000 kcal, isso representaria até 200 kcal por dia, o que equivale, por exemplo, a uma pequena fatia de bolo (cerca de 30 g). Uma alternativa mais saudável é preparar o bolo em casa. Um estudo de POLETTO et al. (2020) comparou um bolo feito com mistura pronta e um bolo caseiro de chocolate, mostrando diferenças importantes:
Nutriente | Mistura Pronta | Caseiro | Diferença |
Açúcar total | 42,3g | 18,7g | -56% |
Gordura | 15,2g | 9,8g | -35% |
Sódio | 380mg | 95mg | -75% |
Fibras | 1,2g | 3,4g | +183% |
Aditivos | 7 (emulsificantes, corantes) | 0 | 100% menos |
Esses resultados mostram que o bolo caseiro tem um perfil nutricional melhor, com menos açúcar, gordura, sódio e sem aditivos. Assim, apesar da praticidade das misturas prontas, optar pelo bolo caseiro é uma escolha mais saudável. Além de reduzir o consumo de açúcar, sódio e aditivos, essa opção também valoriza ingredientes mais simples e naturais, unindo sabor, cuidado com a saúde e evitando as chamadas “armadilhas nutricionais” presentes em muitos produtos industrializados (POLETTO et al., 2020).
Referências[U1]
OVERBY, Rachel. A Cakewalk Through History: The Evolution of Cake and its Identity in America. [S. l.]: Butler University, 2018. Tese (Honors Thesis in History) - Department of History, Butler University. Disponível em:
. Acesso em: 23 mar. 2026.
CICHELLI, Hugo Manuel. Tecnologia de panificação. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2000.
IGLESIA, Viviane de Paula Acosta; ABE-MATSUMOTO, Lucile Tiemi. Mistura para bolo: avaliação quantitativa e qualitativa. In: A indústria de alimentos e a economia circular: alimentando uma nova consciência. [S. l.]: AgronFood Academy, 2021. DOI: 10.53934/9786599539640-48. Disponível em:
https://agronfoodacademy.com/9786599539640-48/. Acesso em: 24 mar. 2026.
LOUZADA, Maria Laura da Costa; GABE, Kamila Tiemann. Classificação de alimentos NOVA: uma contribuição da epidemiologia brasileira. Revista de Saúde Pública, v. 28, e250027, 2025. Disponível em:
https://www.scielosp.org/article/rbepid/2025.v28/e250027/pt/. Acesso em: 24 mar. 2026.
ZHANG, Zhe Fang; ROSSATO, Sinara Laurini; HANG, Dong; KHANDPUR, Neha; WANG, Kai; LO, Chun-Han; WILLETT, Walter C.; GIOVANNUCCI, Edward L.; SONG, Mingyang. Association of ultra-processed food consumption with all cause and cause specific mortality: population based cohort study. BMJ, London, v. 385, e078476, 2024. DOI: 10.1136/bmj-2023-078476. Disponível em:
https://www.bmj.com/content/385/bmj-2023-078476. Acesso em: 24 mar. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014. 156 p. Disponível em:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf. Acesso em: 24 mar. 2026.
POLETTO, Bruno de Oliveira; SANTOS, Reudes Dias dos; RIBEIRO, Eliel Toeni; BRONDANI, Filomena Maria Minetto; RACOSKI, Bruna. Avaliação físico-química de bolo de chocolate elaborado com pré-mistura comercial e caseira. Revista FAEMA de Ciências e Tecnologia, v. 5, n. 1, p. 45-56, 2020.
MONTEIRO, Carlos Augusto; CANNON, Geoffrey; LEVY, Renata Bricarello; MOUBARAC, Jean‑Claude; LOUZADA, Maria Laura da Costa; RAUBER, Fernanda; KHANDPUR, Neha; CEDIEL, Gonzalo; NERI, Agnes Figueroa; MARTINEZ‑STEELE, Eurídice; BARALDI, Ligia Gusso; JAIME, Patrícia Coelho. Ultra‑processed foods: what they are and how to identify them. Public Health Nutrition, Cambridge, v. 22, n. 5, p. 936–941, 2019. DOI: 10.1017/S1368980018003762.
[U1]Colocar as referências em ordem alfabética




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